Uma das teorias contemporâneas que mais me interessa e que constantemente procuro adaptar à pintura é a psicogeografia. De uma forma simples e sucinta, podemos dizer que a psicogeografia é a exploração de um ambiente, tradicionalmente urbano (mas não é obrigatório que o seja), usando por única ferramenta uma análise profunda, consciente e imersiva desse universo. No fim, registamos todos esses elementos. Caminhar, deambular pelos lugares, é o meio de eleição para esta prática. Se virmos a caminhada como uma forma de arte, um modo de agir, uma fonte de conhecimento, compreendemos que as opções que se fazem ao caminhar podem ou não ser conscientes: tal como na pintura, em que as decisões tomadas podem ser intencionais ou instintivas. A caminhada pode tornar-se um processo de reflexão da nossa própria história e, com companhia, uma partilha de experiências de vida. E se nos perdermos -
Porquê pintar um quadro? Porque pelo acto de pintar se existe no presente. Porque pelo olhar e pela pintura ajusto a minha realidade e o meu presente se torna mais vivo. A arte, a pintura, no meu caso, transporta-me para mundos novos, para experiências inéditas, trate-se de uma obra abstracta ou de uma figurativa. Neste quadro conto múltiplas histórias e todas elas coexistem numa mesma realidade: o "cowboy" (aventureiro, solitário e livre) e o cão (um labrador, amigo fiel). Durante o tempo em que estive a pintar este quadro li o livro The Famished Road de Ben Okri (genericamente, pode dizer-se que se trata de uma obra pós-colonial, centrada sobretudo na cultura Yoruba). E durante esse mesmo tempo, também, um novo pano de fundo: a pandemia. E no quadro tudo a decorrer em simultâneo, como na vida, na complexidade dos vários níveis que se sobrepõem e se intersectam. Livros, personagens, pintores